Já eram nove horas e podia-se dizer que ela estava atrasada pra aula de balé. Calçava as pequeninas sapatilhas com a ajuda da mãe, que insistia em fazer um perfeito laço em cada pé. Os cabelos negros, que havia puxado ao pai, já estavam presos em um coque no alto da cabeça, que na opinião dela, era particularmente incômodo, porém era de praxe que os prendesse assim às quartas feiras. Aquele dia era exatamente uma quarta feira. Sua mãe a olhava de soslaio enquanto cantava músicas de uma banda muito antiga, dos tempos de sua juventude. Era um daqueles momentos onde ela ficava com um jeito meio maluco, aéreo. Pandora achava que era devido à música. Era de um cantor chamado Alex Turner, da trilha de algum filme antigo que sua mãe também gostava muito. Quando ela levantou, seu cachos caíram atrapalhados na frente dos olhos, e com um sorriso bobo (por causa da música, claro), pegou sua filha no colo, um pouco afobada devido ao horário. Estavam muito atrasadas, talvez pegassem trânsito, e seria muito vergonhoso chegar tão tarde assim. O pai as esperava próximo a porta, comendo uma fruta, e rejeitando o bolo do café da manhã, já que ele não gostava de bolo. Pandora admitia que era uma prática um pouco estranha, mas haviam poucas coisas convencionais quando dizia respeito a seus progenitores. Pandora viveu em uma estranha casa sem muitas paredes e grandes espaços, uma casa com muita art déco, posteres de filmes pela sala e muitos livros. Muitos, muitos livros de todos os tipos. Seu pai não gostou, certa vez, quando a mãe leu "As Crônicas de Nárnia" para ela antes de dormir. Dizia que era meio bobo e digamos que não era muito fã de religião... Ao que parece, Nárnia tinha algo do tipo. Havia tentado ler para ela coisas sobre Freud, Nietzsche e Mário Puzo, mas percebeu ser muito nova pra entender tudo, então ele desistiu e tentou mostrar obras mais simples, com muitas figuras para melhorar o entendimento, como Death Note, Elfen Lied. Pandora havia gostado muitíssimo, as versões em cores possuíam tons muito vivos de vermelho. Ela gostava de vermelho. Sentia-se como as crianças muçulmanas que moravam nos EUA: viviam diferente, pensavam diferente e eram olhados e tratados diferente. Sorte a dela que sua família tinha uma boa quantia de dinheiro, o que amenizava as coisas. Além de tudo, sua mãe gostava muito de dinheiro e gastar das formas mais bizarras possíveis, com coisas que ela não sabia que precisava até vê-las nas vitrines. Ela gostava muito de roupas... Hoje, estava com um vestido preto e uma sapatilha de pano que ela usava quando estava preguiçosa demais para se arrumar porém vaidosa o suficiente para querer causar inveja, ao contrário do pai, que não se importava nadinha com isso. Estava com uma camiseta um pouco surrada que Pandora gostava muito, também de uma banda antiga, porém mais antiga que o tal de Alex Turner (o nome na camiseta dizia "Legião Urbana", um nome engraçado para uma banda) e os velhos tênis Converse de guerra. Apesar de surrado, ele sempre parecia alegre e calmo quando a olhava nos olhos, como uma revelação divina. Se sentia protegida ao lado dele, acima de tudo. E sabia que sua mãe o amava muito também. Ele abriu a porta e fez um gesto galante para que sua mãe passasse, com Pan no colo. Ela respondeu com um olhar amoroso e uma risada sarcástica, balbuciando algo sobre cavalheirismo nos dias de hoje. Eles eram engraçados quando estavam juntos. Separados pareciam meio... separados. Faltava algo. Descendo as escadas da porta, o barulho na avenida era suave. A região era vastamente arborizada e ela se sentia feliz de morar ali. O vento nos cabelos nas tardes de domingo nas quais a família ficava sentada em frente à porta, observando as árvores e o ruído dos passaros. Tudo era calmo ali. Entraram no carro discreto, e foram seguindo pelas ruas da 114 Sul. No banco de trás, havia uma pequena bagunça que envolvia embalagens de fast food, livros velhos e DVDs de filmes em preto e branco. As tatuagens no braço de sua mãe cintilavam quando a luz da manha que vinha pela janela aberta do banco do passageiro batiam nela. Eram um emaranhado de desenhos coloridos, simbolos, rostos e monocromáticas caveiras. O pai sempre concentrado em sua tarefa do momento, que era dirigir. Podia-se dizer que ele era muito atento e responsável. Gostava disso. Estavam chegando à esquina na qual ela fazia balé. Era uma bonita manhã no meio da semana e ela queria ficar em casa assistindo desenhos animados, mas compromisso era compromisso. Seu pai deu um beijo em sua bochecha quando estacionaram em frente ao "Ballet Norma Livia Biavaty" e sua mãe abriu a porta para que ela descesse e com um sorriso pediu que se comportasse. Subiu as escadas um pouco apressada, e quando olhou pra trás, eles ainda esperavam que ela passasse pela porta dourada do ballet. Uma sensação era comum à ela em momentos como esse, onde percebia que era uma vida gerada por outras. Acima de tudo, uma pequena criança começando a viver sua própria e emocionante vida.